agosto 26, 2026 • Artigo

“Não aplicou teste” não é, uma crítica técnica suficiente a um laudo psicológico.

Além disso, a qualidade de um laudo depende da coerência metodológica do processo, não da quantidade de instrumentos utilizados.

Uma das críticas mais frequentes dirigidas a um laudo psicológico é a afirmação de que ele seria tecnicamente inadequado porque não utilizou testes psicológicos. Embora a escolha dos procedimentos seja um aspecto fundamental da avaliação, essa conclusão não pode ser feita de maneira automática.

A ausência de testes, isoladamente, não demonstra a inadequação de uma avaliação psicológica. Da mesma forma, a presença de vários instrumentos não garante, por si só, a qualidade do trabalho realizado.

A pergunta tecnicamente relevante é outra:

os métodos escolhidos foram pertinentes e suficientes para responder à demanda que originou a avaliação?

Avaliação psicológica não é sinônimo de aplicação de testes

Contudo, a Resolução do Conselho Federal de Psicologia define a avaliação psicológica como processo de investigação de fenômenos psicológicos, realizado a partir de demandas e finalidades específicas. A normativa determina que os profissionais fundamentem suas decisões em métodos, técnicas e instrumentos psicológicos reconhecidos cientificamente.[1]

Essa definição é importante porque desloca o foco de uma visão quantitativa para uma análise metodológica. A avaliação psicológica não é um conjunto automático de procedimentos. A avaliação psicológica exige raciocínio profissional, delimitação da pergunta psicológica, seleção fundamentada de fontes de informação, análise dos dados e elaboração de conclusões compatíveis com aquilo que investigamos efetivamente.

Os testes psicológicos podem integrar esse processo, mas não são o processo inteiro. Quando a utilização é justificada e tecnicamente adequada, entrevistas psicológicas, anamnese, observação de comportamentos, registros e documentos pertinentes ajudam a compreender o fenômeno.

Quais itens devemos analisar em um laudo?

A leitura técnica de um laudo não deve começar pela contagem dos instrumentos utilizados. Primeiro, determine a demanda: qual é a pergunta psicológica que você precisa responder? Qual era a finalidade do documento? Quais eram as condições concretas do caso? Quais fenômenos estavam dentro do alcance da avaliação?

A partir dessas perguntas, é possível examinar se houve coerência entre os procedimentos escolhidos, os dados obtidos, a análise realizada e as conclusões apresentadas.

Além disso, essa sequência evita reduzir a crítica à mera presença ou ausência de um único instrumento. Um laudo pode não utilizar testes e, ainda assim, apresentar uma estratégia metodológica coerente com a demanda. Além disso, vários testes podem ser usados, e avaliação pode permanecer frágil se os procedimentos não forem justificados ou se as conclusões ultrapassarem os dados.

Ademais, a ausência de testes pode se tornar relevante.

Quando a ausência de testes pode se tornar relevante

Portanto, a ausência de testes pode ser tecnicamente relevante quando os procedimentos escolhidos não produzem informações suficientes para sustentar as conclusões apresentadas. O problema não resulta apenas de não termos aplicado um teste, mas da insuficiência do conjunto metodológico para responder à pergunta.

Por exemplo, se a demanda exige a investigação de determinado fenômeno psicológico e o documento não apresenta dados suficientes para fundamentar a conclusão, é necessário examinar se houve uma falha na seleção das fontes, na condução dos procedimentos, na análise ou na delimitação das conclusões. Não devemos transformar o teste em critério único e universal.

Dito isso, é preciso considerar as condições específicas do caso. Logo, a seleção de métodos depende da população avaliada, do contexto, do tempo disponível e dos limites éticos e técnicos da atuação profissional. Assim, uma crítica responsável precisa demonstrar por que os procedimentos foram insuficientes e qual foi a repercussão dessa insuficiência sobre as conclusões.

No entanto, a presença de testes por si só não assegura qualidade.

A utilização de um teste psicológico exige cuidados próprios. Conduzimos a verificação para confirmar que o instrumento estava aprovado para uso profissional, que era adequado à população avaliada, que apresentava pertinência para a demanda, que foi aplicado e interpretado conforme as orientações técnicas e que seus resultados foram integrados às demais informações.

A própria regulamentação do Conselho Federal de Psicologia destaca a importância da observância das orientações, da padronização e da normatização previstas no manual técnico aprovado no Sistema de Avaliação de Testes Psicológicos, o SATEPSI. Assim, mencionar apenas um instrumento no documento não mostra que alguém o tenha utilizado de modo adequado.

Pesquisadores precisam registrar a aplicação de um teste e indicar como seus resultados contribuem para responder à pergunta psicológica. A transcrição de escores ou de descrições padronizadas, sem interpretação contextualizada, pode produzir um documento aparentemente detalhado, mas metodologicamente limitado.

Fragilidades metodológicas que merecem atenção

Um laudo pode apresentar fragilidade mesmo quando contém diversos instrumentos. Isso ocorre quando os profissionais não justificam os procedimentos, transcrevem resultados sem análise, as conclusões ultrapassam dados e não consideram hipóteses alternativas.

Não devemos confundir esses problemas com uma simples discordância entre profissionais. Entretanto, a assistência técnica psicológica demonstra, com base no documento e no contexto, a fragilidade identificada e por que ela compromete, ou não, determinada conclusão.

Existem regras para para a elaboração de documentos escritos produzidos no exercício profissional e fornece subsídios éticos e técnicos para a comunicação escrita em Psicologia.[2] O documento psicológico não é apenas um registro formal: ele comunica uma atuação profissional, pode subsidiar decisões e deve manter relação de coerência com o serviço prestado e com os limites dos dados disponíveis.

O CFP, reforça que registros e documentos são instrumentos que materializam o trabalho desenvolvido, comunicam processos de cuidado e podem subsidiar decisões institucionais, jurídicas e sociais. Por isso, sua elaboração exige rigor técnico, objetividade, responsabilidade ética e atenção aos direitos humanos. Advogados, por exemplo, não possuem conhecimento técnico nem a expertise para confrontar o laudo psicológico.

O papel da assistência técnica

Na assistência técnica, o profissional de psicológica especializado na área forense aplica uma análise metodológica indispensável para diferenciar críticas fundamentadas de objeções baseadas apenas em preferência profissional. O fato de outro profissional escolher métodos diferentes não significa, por si só, que o primeiro trabalho seja inadequado.

Ao mesmo tempo, a autonomia técnica não impede a análise crítica. Podemos verificar se delimitamos a demanda de forma correta, adotamos procedimentos pertinentes, reunimos informações suficientes, consideramos hipóteses alternativas e as conclusões respeitam os limites do processo avaliativo.

A identificação de um possível problema metodológico também não invalida automaticamente todo o documento. É necessário delimitar a fragilidade, avaliar sua extensão e demonstrar sua repercussão concreta sobre as conclusões. Esse cuidado protege a qualidade do debate profissional, evitando que a análise técnica seja substituída por afirmações genéricas baseadas em opiniões, e em muitos casos quando é o advogado que aponta fragilidades no laudo acaba sendo ignorada pelo juízo, o que fragiliza a tese e pode prejudicar o cliente.

Rigor metodológico é mais do que quantidade

Utilizamos a pergunta “quantos testes utilizamos?” como ponto inicial, e não como ponto final da análise. Como assistente técnica analiso a qualidade do laudo pela coerência entre a pergunta psicológica, os procedimentos escolhidos, os dados obtidos, a interpretação e as conclusões apresentadas.

Em Psicologia Jurídica, essa coerência assume importância ainda maior porque os documentos podem influenciar decisões que afetam relações familiares, direitos, responsabilidades e trajetórias de vida. Quanto maior o impacto potencial do documento, maior deve ser o cuidado com a fundamentação, a linguagem, os limites e a transparência do raciocínio profissional.

A análise tecnicamente responsável não pergunta apenas se houve teste. Ela pergunta se o processo foi capaz de produzir informações pertinentes e suficientes para responder à demanda, se as conclusões são sustentadas pelos dados e se o documento reconhece adequadamente suas limitações.

Rigor técnico não é sinônimo de quantidade. É a capacidade de construir uma conclusão proporcional às evidências disponíveis.

Se você é advogada (a) já deve ter atuado em um caso onde ocorreu a perícia psicológica, já pensou em ter uma parceria com uma assistente técnica?

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Conteúdo informativo. A análise de um laudo exige conhecimento integral do documento e do contexto em que foi produzido. Este texto não substitui avaliação profissional, orientação institucional ou análise individualizada de um caso.

Referências

Referências

[1]: Conselho Federal de Psicologia — Nova resolução do CFP destaca diretrizes para a Avaliação Psicológica

[2]: Conselho Federal de Psicologia — Resolução CFP 06/2019 comentada: orientações sobre elaboração de documentos escritos

[3]: Conselho Federal de Psicologia — Manual Orientativo de Registro e Elaboração de Documentos Psicológicos

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